CassianoRicardo

Cassiano Ricardo

Tarde no Campo

Ver a tarde, afinal... e as quérulas avenas
de um rancho de zagais , em chorosa surdina, 
põem trêmulos de dor, de saudades terrenas,
no claro-escuro da tristeza vespertina...

Ao dorido langor de agrestes cantilenas,
a lâmpada do ocaso as coisa ilumina;
o crepúsculo entreabre as rosas e as verbenas,
como a interrogação da dúvida divina.

Longe, a tarde se estorce, em violácea agonia.
Essas horas de susto e de melancolia,
como é triste ao pastor transviado compreendê-los!

Pelas moitas sem luz, pelos ermos escampos,
com cabelos de luar e olhos de pirilampos,
desce a Noite, tangendo o rebanho de estrelas...

Metamorfose

Meu avô foi buscar prata
mas a prata virou índio.

Meu avô foi buscar índio 
mas o índio virou ouro.

Meu avô foi buscar ouro
mas o ouro virou terra.

Meu av6o foi buscar terra
mas a terra virou fronteira.

Meu avô, ainda intrigado,
foi modelar a fronteira:

E o Brasil tomou forma de harpa.
Desejo

As coisas que não conseguem morrer
só por isso são chamadas eternas.
As estrelas, dolorosas lanternas
que não sabem o que é deixar de ser.

Ó força incognoscível que governas
o meu querer, como o meu não-querer.
Quisera estar entre as simples luzernas
que morreram no primeiro entardecer.

Ser deus- e não as coisas mais ditosas
Quanto mais breves, como são as rosas -
é não sonhar, é nada mais obter.

Ó alegria dourada de o não ser
entre as coisas que são, e as nebulosas,
que não conseguem dormir nem morrer.

Relógio de Pêndulo

Nada melhor do que um relógio antigo
pra quem cultive a graça das demoras.
Um relógio que, por absurdo e ambíguo
marque mais os outroras que os agoras.

Um monstro tardo, não obstante assíduo,
que acuse mais os anos do que as horas.
E mais viva atrasado no castigo
que a me indagar na pressa: por que choras?

O que mandei comprar a um velho avaro
é assim - memória no desassossego.
Gorjeia às vezes mais do que um canário.

Relógio sub-reptício que (morcego)
chupa o meu sangue mas, em cada brecha,
as asas dos ponteiros abre e fecha...

A Física do Susto

O espelho caiu da parede.
Caiu com ele o meu rosto.
Com o meu rosto a minha sede.
com a minha sede o meu desgosto.
O meu desgosto de olhar,
no espelho caído, o meu rosto.

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