Interpoetica - Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

"Vozes veladas, veludosas vozes"

Siderações 

Para as Estrelas de cristais gelados 
As ânsias e os desejos vão subindo, 
Galgando azuis e siderais noivados 
De nuvens brancas a amplidão vestindo... 

Num cortejo de cânticos alados 
Os arcanjos, as cítaras ferindo, 
Passam, das vestes nos troféus prateados, 
As asas de ouro finamente abrindo... 

Dos etéreos turíbulos de neve 
Claro incenso aromal, límpido e leve, 
Ondas nevoentas de Visões levanta... 

E as ânsias e os desejos infinitos 
Vão com os arcanjos formulando ritos 
Da Eternidade que nos Astros canta...

Deusa Serena 

Espiritualizante Formosura 
Gerada nas Estrelas impassíveis, 
Deusa de formas bíblicas, flexíveis, 
Dos eflúvios da graça e da ternura. 

Açucena dos vales da Escritura, 
Da alvura das magnólias marcessíveis, 
Branca Via-Láctea das indefiníveis 
Brancuras, fonte da imortal brancura. 

Não veio, é certo, dos paus da terra 
Tanta beleza que o teu corpo encerra, 
Tanta luz de luar e paz saudosa... 

Vem das constelações, do Azul do Oriente, 
Para triunfar maravilhosamente 
Da beleza mortal e dolorosa!

Música da Morte

A música da Morte, a nebulosa, 
estranha, imensa música sombria, 
passa a tremer pela minh'alma e fria 
gela, fica a tremer, maravilhosa ... 
Onda nervosa e atroz, onda nervosa, 
letes sinistro e torvo da agonia, 
recresce a lancinante sinfonia 
sobe, numa volúpia dolorosa ... 

Sobe, recresce, tumultuando e amarga, 
tremenda, absurda, imponderada e larga, 
de pavores e trevas alucina ... 

E alucinando e em trevas delirando, 
como um ópio letal, vertiginando, 
os meus nervos, letárgica, fascina ...

Cárcere das Almas

Ah! Toda a Alma num cárcere anda presa, 
soluçando nas trevas, entre as grades 
do calabouço olhando imensidades, 
mares, estrelas, tardes, natureza. 
Tudo se veste de uma igual grandeza 
quando a alma entre grilhões as liberdades 
sonha e sonhando, as imortalidades 
rasga no etéreo Espaço da Pureza. 

Ó almas presas, mudas e fechadas 
nas prisões colossais e abandonadas, 
da Dor no calabouço, atroz, funéreo! 

Nesses silêncios solitários, graves, 
que chaveiro do Céu possui as chaves 
para abrir-vos as portas do Mistério?!

Encarnação 

Carnais, sejam carnais tantos desejos, 
Carnais, sejam carnais tantos anseios, 
Palpitações e frêmitos e enleios, 
Das harpas da emoção tantos arpejos... 

Sonhos, que vão, por trêmulos adejos, 
A noite, ao luar, intumescer os seios 
Lácteos, de finos e azulados veios 
De virgindade, de pudor, de pejos... 

Sejam carnais todos os sonhos brumos 
De estranhos, vagos, estrelados rumos 
Onde as Visões do amor dormem geladas... 

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias 
Formem, com claridades e fragrâncias, 
A encarnação das lívidas Amadas!

Acrobata da dor

Gargalha e ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta, clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Perdem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço. 

Cristo de Bronze

Ó Cristos de ouro, de marfim, de prata, 
Cristos ideais, serenos, luminosos, 
Ensangüentados Cristos dolorosos 
Cuja cabeça a Dor e a Luz retrata. 

Ó Cristos de altivez intemerata, 
Ó Cristos de metais estrepitosos 
Que gritam como os tigres venenosos 
Do desejo carnal que enerva e mata. 

Cristos de pedra, de madeira e barro... 
Ó Cristo humano, estético, bizarro, 
Amortalhado nas fatais injurias... 

Na rija cruz aspérrima pregado 
Canta o Cristo de bronze do Pecado, 
Ri o Cristo de bronze das luxúrias!... 

Antífona 

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras 
De luares, de neves, de neblinas!... 
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... 
Incensos dos turíbulos das aras... 

Formas do Amor, constelarmente puras, 
De Virgens e de Santas vaporosas... 
Brilhos errantes, mádidas frescuras 
E dolências de lírios e de rosas... 

Indefiníveis músicas supremas, 
Harmonias da Cor e do Perfume... 
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas, 
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume... 

Visões, salmos e cânticos serenos, 
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes... 
Dormências de volúpicos venenos 
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes... 

Infinitos espíritos dispersos, 
Inefáveis, edênicos, aéreos, 
Fecundai o Mistério destes versos 
Com a chama ideal de todos os mistérios. 

Do Sonho as mais azuis diafaneidades 
Que fuljam, que na Estrofe se levantem 
E as emoções, sodas as castidades 
Da alma do Verso, pelos versos cantem. 

Que o pólen de ouro dos mais finos astros 
Fecunde e inflame a rime clara e ardente... 
Que brilhe a correção dos alabastros 
Sonoramente, luminosamente. 

Forças originais, essência, graça 
De carnes de mulher, delicadezas... 
Todo esse eflúvio que por ondas passe 
Do Éter nas róseas e áureas correntezas... 

Cristais diluídos de clarões álacres, 
Desejos, vibrações, ânsias, alentos, 
Fulvas vitórias, triunfamentos acres, 
Os mais estranhos estremecimentos... 

Flores negras do tédio e flores vagas 
De amores vãos, tantálicos, doentios... 
Fundas vermelhidões de velhas chagas 
Em sangue, abertas, escorrendo em rios..... 

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte, 
Nos turbilhões quiméricos do Sonho, 
Passe, cantando, ante o perfil medonho 
E o tropel cabalístico da Morte...

Monja 

Ó Lua, Lua triste, amargurada, 
Fantasma de brancuras vaporosas, 
A tua nívea luz ciliciada 
Faz murchecer e congelar as rosas. 

Nas flóridas searas ondulosas, 
Cuja folhagem brilha fosforeada, 
Passam sombras angélicas, nivosas, 
Lua, Monja da cela constelada. 

Filtros dormentes dão aos lagos quietos, 
Ao mar, ao campo, os sonhos mais secretos, 
Que vão pelo ar, noctâmbulos, pairando... 

Então, ó Monja branca dos espaços, 
Parece que abres para mim os braços, 
Fria, de joelhos, trêmula, rezando...

Braços 

Braços nervosos, brancas opulências, 
Brumais brancuras, fulgidas brancuras, 
Alvuras castas, virginais alvuras, 
Lactescências das raras lactescências. 

As fascinantes, mórbidas dormências 
Dos teus abraços de letais flexuras, 
Produzem sensações de agres torturas, 
Dos desejos as mornas florescências. 

Braços nervosos, tentadoras serpes 
Que prendem, tetanizam como os herpes, 
Dos delírios na trêmula coorte... 

Pompa de carnes tépidas e flóreas, 
Braços de estranhas correções marmóreas, 
Abertos para o Amor e para a Morte!

Vida Obscura 

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
a vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
e o teu suspiro como foi profundo!

Múmia 

Múmia de sangue e lama e terra e treva, 
Podridão feita deusa de granito, 
Que surges dos mistérios do Infinito 
Amamentada na lascívia de Eva. 

Tua boca voraz se farta e ceva 
Na carne e espalhas o terror maldito, 
O grito humano, o doloroso grito 
Que um vento estranho para és limbos leva. 

Báratros, criptas, dédalos atrozes 
Escancaram-se aos tétricos, ferozes 
Uivos tremendos com luxúria e cio... 

Ris a punhais de frígidos sarcasmos 
E deve dar congélidos espasmos 
O teu beijo de pedra horrendo e frio!... 

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