| Lira
I - Parte I
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro
Que viva de guardar alheio gado,
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Dos frios gelos e dos sóis queimado;
Tenho própio casal e nele assisto;
Dá-me fruta, legume, vinho, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite
E mais a fina lã, de que me visto,
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado;
Com tal destreza toco a sanfoninha
Que inveja até me tem o próprio Alceste;
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra que não seja minha.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
Mas tendo tantos dotes de ventura,
Só apreço lhes dou, gentil pastora,
Depois que o teu afeto me assegura,
Que queres do que tenho ser senhora;
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho que cubra monte e prado;
Porém, gentil pastora, o teu agrado
Vale mais que um rebanho e mais que um trono.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
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Cartas
Chilenas (carta IX,fragmento)
"A desordem, amigo, não consiste
em formar esquadras, mas sim no excesso.
Um reino bem regido não se forma
somente de soldados; tem de tudo:
tm milícia, lavoura, e tem comércio.
Se quantos forem ricos se adornarem
das golas e das bandas, não teremos
um só depositário, nem os órfãos
terão também tutores,quando nisto
interessa igualmente o bem do Império.
Carece a monarquia dez mil homens
de tropa auxiliar? Não haja embora
de menos um soldado, mas os outros
vão à pátria servir nos mais empregos,
pois os corpos civis são como os nossos,
que, tendo um membro forte e outros débeis,
se devem, Doroteu, julgar enfermos." |
Tu não verás Marília, cem cativos
tirarem o cascalho e a rica terra,
ou dos cercos dos rios caudalosos,
ou da mina serra.
Não verás separar ao hábil negro
do pesado esmeril a grossa areia;
e já brilharem os granetes de ouro
no fundo da bateia.
Não verás derrubar os virgens matos,
queimar as capoeiras inda novas,
servir de adubo à terra a fértil cinza,
lançar os grãos nas covas.
Não verás enrolar negros pacotes
das secas folhas do cheiroso fumo:
nem espremer entre as dentadas rodas
da doce cana o sumo.
Verás em cima da espaçosa mesa
altos volumes de enredados feitos;
ver-me-ás folhear os grandes livros,
e decidir os pleitos.
Enquanto revolver os meus Consultos,
tu me farás gostosa companhia,
lendo os fastos da sábia, mestra História,
e os cantos da poesia.
Lerás em alta voz, a imagem bela;
eu vendo que lhe dás o justo apreço,
gostoso tornarei a ler de novo
o cansado processo.
Se encontrares louvada uma beleza,
Marília, não lhe invejes a ventura,
que tens quem leve à mais remota idade
a tua formosura.
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