Qualquer música
Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!
Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...
Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!
AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não tem.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse camboio de corda
Que se chama o coração.
Poema
O céu, azul de lua quieta.
As ondas brandas a quebrar,
Na praia lúcida e completa -
Pontas de dedos a brincar.
No piano anônimo da praia
Tocam nenhuma mel;odia
De cujo ritmo por fim saia
Todo o sentido deste dia.
Que bom, se isto satisfazesse!
Que certo, se eu pudessse crer
Que esse mar e essas ondas e esse
Céu tem vida e têm ser.
Marinha
Ditosos a quem acena
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.
Dôo-me até onde penso,
E ador é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...
E sobe até mim, já farto
DE improfícuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.
Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.
Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,
Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alama é indistinta,
Não sabe o que quer.
É uma dor serena,
sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...
I. Os campos
Primeiro / Os Castellos
A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe romanticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovello esquerdo é recuado;
O direito é um angulo disposto.
Aquelle diz Italia onde é pousado;
Este diz Inlgaterra onde, afastado,
A mãe sustenta, em que se appoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
Segundo / O das quinas
Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Christo definiu:
Assim o oppoz à Natureza
E Filho o ungiu.
Passos da Cruz
IX
Meu coração é um pórtico partido
Dando excessivamente sobre o mar
Vejo em minha alma as velas vão passar
E cada vela passa num sentido.
Um soslaio de sombras e ruído
Na transparente solidão do ar
Evoca as estrelas sobre a noite estar
Em afastados céus o póticos ido...
E em palmares de Antilhas entrevistas
Através de, com mãos eis apartados
Os sonhos, cortinados de ametistas,
Imperfeito o sabor de compensando
O grande espaço entre os troféus alçados
Ao centro do triunfo em ruído e bando...
XI
Não sou eu quem descrevo. eu sou a tela
E oculta mão coloca alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.
Que importa o tédio que dentro em mim gela,
e o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Como os sonhados pálios de cetim?
Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...
E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do vôo começado
Pestaneja no campo abandonado...
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QUANDO ELA PASSSA
Quando eu me sento à janela
P'los vidros que a neve embaça
Vejo a doce umagem dela
Quando passa... passa... passa...
Lançou-me a mágoa seu véu: -
Menos um ser neste mundo
E mais um anjo no céu.
Quando eu me sento à janela,
P'los vidros que a neve embaça
Julgo ver a imagem dela
Que já não passa... não passa...
MAR. MANHÃ
Suavemente grande avança
Cheia de sol a onda do mar;
Pausadamente se balança,
e desce como a descansar.
Tão lenta e longa que parece
De uma criança de Titã
O glauco seio que adormece,
Arfando à brisa da manhã.
Parece ser um ente apenas
Este correr da onda do mar,
Como uma cobra que em serenas
Dobras se alongue a colear.
Unido e vasto e interminável
No são sossego azul do sol,
Arfa com um mover-e estável
O oceano ébrio de arrebol.
E a minha sensação é nula,
Quer de prazer, quer de pesar...
Ébria de alheia a mim ondula
N aonda lúcida do mar.
VISÃO
Há um país imenso mais real
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendode viver.
Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou srer
Onde nem vento geme, nem fatal
A idéia de uma nunvem se faz crer.
Jaz - uma terra não - não há um solo
Mas estranha, gelando em desconsolo
À alma que vê esse país sem véu,
Hirtamente silente nos espaços
Uma floresta de escarnados braços
Inutilmente erguidos para o céu.
Dobre
Peguei no meu coração
e pu-lo na minha mão
Olhei-o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha
Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;
Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.
Canção
Silfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheiros
Sobram e bafos leves
De ritmos musicais.
Ondulam como em voltas
De estrada não sei onde
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde .
Forma longínqua e oncerta
Do que eu nunca terei...
Mal oiço, e quase choro.
Por que choro não sei.
Tão tênue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.
Mas cessa, como uma brisa
Esquece a forma aos seus ais;
E agora não há mais música
Do que a dos pinherais.
Serena voz imperfeita, eleita
Para falar aos deuses mortos -
a janela que falte ao teu palácio deita
Para o Porto todos os portos.
Faísca da idéia de uma voz suando
Lírios nas mãos de princesas sonhadasm
Eu sou a ma're de pensar-te, orlando
A Enseada todas as enseadas.
Brumas marinhas esquinas de sonho...
Janelas dando para Tédio os charcos...
E eu fito o meu Fim que me olha, tristonho,
Do convés do Barco todos os barcos...
Conselho
Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
Faze canteiros como os que os outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
e deixa as ervas naturais medrar.
Faze de ti um duplo ser guardado;
E que niguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês.
Passos da Cruz
II
Há um poeta em mim que Deus me disse...
A primavera esquece nos barrancos
as grinaldas que trouxe dos arrancos
Da sua efêmera e espectral ledice...
Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos
Olhando a hora como quem sorrisse...
Florir do dia a capitéis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tédio onde o só ter tédio nos seduz...
Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e vôo... |