Interpoetica - Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Qualquer música

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer 
Qualquer impossível calma!

Qualquer música - guitarra, 
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão 
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!

AUTOPSICOGRAFIA 

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não tem.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse camboio de corda
Que se chama o coração. 

Poema 

O céu, azul de lua quieta.
As ondas brandas a quebrar,
Na praia lúcida e completa - 
Pontas de dedos a brincar.

No piano anônimo da praia
Tocam nenhuma mel;odia
De cujo ritmo por fim saia
Todo o sentido deste dia. 

Que bom, se isto satisfazesse!
Que certo, se eu pudessse crer 
Que esse mar e essas ondas e esse 
Céu tem vida e têm ser. 

Marinha 

Ditosos a quem acena 
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.

Dôo-me até onde penso, 
E ador é já de pensar, 
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...

E sobe até mim, já farto 
DE improfícuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias. 

Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.

Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja 
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,

Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.

Minha alama é indistinta, 
Não sabe o que quer.

É uma dor serena,
sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...

I. Os campos 

Primeiro / Os Castellos 

A Europa  jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe romanticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovello esquerdo é recuado;
O direito é um angulo disposto. 
Aquelle diz Italia onde é pousado;
Este diz Inlgaterra onde, afastado,
A mãe sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal, 
O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Segundo / O das quinas 

Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!

Baste a quem baste o que lhe basta 
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.

Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Christo definiu:
Assim o oppoz à Natureza
E Filho o ungiu. 

Passos da Cruz

                      IX

Meu coração é um pórtico partido 
Dando excessivamente sobre o mar
Vejo em minha alma as velas vão passar
E cada vela passa num sentido. 

Um soslaio de sombras e ruído
Na transparente solidão do ar
Evoca as estrelas sobre a noite estar
Em afastados céus o póticos ido... 


E em palmares de Antilhas entrevistas
Através de, com mãos eis apartados 
Os sonhos, cortinados de ametistas,

Imperfeito o sabor de compensando 
O grande espaço entre os troféus alçados 
Ao centro do triunfo em ruído e bando...

                       XI

Não sou eu quem descrevo. eu sou a tela 
E oculta mão coloca alguém em mim. 
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim. 

Que importa o tédio que dentro em mim gela,
e o leve Outono, e as galas, e o marfim, 
E a congruência da alma que se vela 
Como os sonhados pálios de cetim?

Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...

E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do vôo começado
Pestaneja no campo abandonado...




QUANDO ELA PASSSA

Quando eu me sento à janela 
P'los vidros que a neve embaça 
Vejo a doce umagem dela
Quando passa... passa... passa...

Lançou-me a mágoa seu véu: - 
Menos um ser neste mundo
E mais um anjo no céu.

Quando eu me sento à janela,
P'los vidros que a neve embaça
Julgo ver a imagem dela 
Que já não passa... não passa...

MAR. MANHà

Suavemente grande avança 
Cheia de sol a onda do mar;
Pausadamente se balança,
e desce como a descansar.

Tão lenta e longa que parece
De uma criança de Titã
O glauco seio que adormece,
Arfando à brisa da manhã.

Parece ser um ente apenas
Este correr da onda do mar, 
Como uma cobra que em serenas
Dobras se alongue a colear.

Unido e vasto e interminável 
No são sossego azul do sol,
Arfa com um mover-e estável
O oceano ébrio de arrebol.

E a minha sensação é nula, 
Quer de prazer, quer de pesar...
Ébria de alheia a mim ondula
N aonda lúcida do mar. 

VISÃO 

Há um país imenso mais real 
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendode viver.

Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou srer
Onde nem vento geme, nem fatal
A idéia de uma nunvem se faz crer.

Jaz - uma terra não - não há um solo 
Mas estranha, gelando em desconsolo 
À alma que vê esse país sem véu, 

Hirtamente silente nos espaços 
Uma floresta de escarnados braços
Inutilmente erguidos para o céu. 

Dobre 

Peguei no meu coração 
e pu-lo na minha mão 

Olhei-o como quem olha 
Grãos de areia ou uma folha

Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;

Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida. 

Canção 

Silfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheiros 
Sobram e bafos leves 
De ritmos musicais.

Ondulam como em voltas 
De estrada não sei onde
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde .

Forma longínqua e oncerta 
Do que eu nunca terei... 
Mal oiço, e quase choro.
Por que choro não sei.

Tão tênue melodia 
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.

Mas cessa, como uma brisa 
Esquece a forma aos seus ais;
E agora não há mais música 
Do que a dos pinherais.

Serena voz imperfeita, eleita
Para falar aos deuses mortos - 
a janela que falte ao teu palácio deita 
Para o Porto todos os portos.

Faísca da idéia de uma voz suando 
Lírios nas mãos de princesas sonhadasm
Eu sou a ma're de pensar-te, orlando
A Enseada todas as enseadas.

Brumas marinhas esquinas de sonho...
Janelas dando para Tédio os charcos...
E eu fito o meu Fim que me olha, tristonho,
Do convés do Barco todos os barcos... 

Conselho 

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que os outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
e deixa as ervas naturais medrar. 

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que niguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és - 
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês. 

Passos da Cruz

                          II 

Há um poeta em mim que Deus me disse...
A primavera esquece nos barrancos 
as grinaldas que trouxe dos arrancos
Da sua efêmera e espectral ledice...

Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos
Olhando a hora como quem sorrisse...

Florir do dia a capitéis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tédio onde o só ter tédio nos seduz... 

Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e vôo...

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