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Trinca - escrita a bic
1.
esta caneta morta, anônima na prateleira sangue azul de nobreza negada destampa-se como quem abre os olhos e se depara ao calor do sol como a cidade seus cheiros abandonada no parapeito na ponte onde o suor escorre a vida como joga o pescador o jereré presa à miséria como o siri as malhas atraído pelas tripas restos, gorjetas migalhas a indiferença transpassa contra o relógio nervo esgarçado pregões ternos, gravatas como passam contra a inocência as crianças contra a correnteza homem caranguejo avança o último fio de esperança o mangue enquanto a morte espreita a noite, nas esquinas esta caneta escorre a tinta, como sangue esquenta a vida 2. maria, bastiana zefinha, bia, silva vó, mãe, fia que família todo o Recife é moradia? lençol de mulambo colchão de cimento telhado de estrelas a dor se faz lírica a contragosto como um sax agride como peixeira a noite estupra sangra sem piedade como dentes podres a coragem como a fome o grito encarnado estendido ladra ninguém ouve morde, morde cão sem plumas paralítico em si mesmo arranca da fome os seus vazios que a vida é escárnio a vingança irrompe com a madrugada a veia desatada é o rio espesso lama de mangue argila que se entranha trincheira de caranguejos sapiens estuário uma vida não passa como a ponte o rio como o sangue-tinteiro assina o nome a revolta
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Mínima
poética - declaração de princípios
A - Tese 1. a incapacidade matemática de medir versos como quem calcula a vida 2. barragem de concreto a língua sem teoremas ou teses formuladas 3. mas a exatidão da medicina do diagnóstico que prescreva medicamento à ferida 4. a cura do verso pelo regime eliminar gorduras como excremento 5. o estetoscópio da palavra não mede a imprecisão das descargas de adrenalina 6. automedicar-se saber dos erros a bula como quem conhece da química as reações B - Antítese 1. posto à cirurgia corpo, flor equação ou poema trazem em si seus desvios avessos 2. nada provar ou aprovar verdades consumir-se ou renovar-se como mangue 3. o que se extrai dor, catarse fruto, sonho que não se compra qual o preço do poema? C - Síntese 1. não à loucura lírica, retórica nem a camisa-de-força da psiquiatria métrica dos estetas 2. a forma física do verso - do poeta independe da forma fixa exige apenas da dieta a paciência 3. a tensão do nervo exposto também a carne a pele com a fragrância que se exala 4. fazer de músculos pétalas e fermento roer ossos como se saboreia pão e lágrimas por que não? 5. não negar desejos o tecido que se rasga o sexo que alucina 6. o menos um da embriaguez o uivo do acaso o talho seco do lampejo a poesia que se acende
Poema inscrito num tijolo
ou o tempo encrostado no Recife Antigo Este poema não se pretende pedra mas se constrói com a argila do tempo poderia construir-se: janelas, abrigos, igrejas puteiros, botequins, arrecifes um tijolo sobre o outro, inexorável dando formas à imaginação aprisioná-lo seria, no entanto, suicídio o Recife, no inverno, umedece - não emudece - o poema resiste. Cada caco recolhido à terra: alicerce e matéria-prima da linguagem tijolo sobre tijolo o poema se faz sem saber arquitetura paisagem lodo e esquecimento
Poema escrito
num tijolo antigo
junho de 89, Aldeia
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