Interpoetica - Marcelo Pereira

Marcelo Pereira




Trinca - escrita a bic
1.
esta caneta
morta, anônima
na prateleira

sangue azul
de nobreza
negada

destampa-se
como quem abre
os olhos

e se depara
ao calor do sol
como a cidade

seus cheiros
abandonada
no parapeito

na ponte
onde o suor
escorre a vida

como joga
o pescador
o jereré

presa à miséria
como o siri
as malhas

atraído pelas tripas
restos, gorjetas
migalhas

a indiferença
transpassa
contra o relógio

nervo esgarçado
pregões
ternos, gravatas

como passam
contra a inocência
as crianças

contra a correnteza
homem caranguejo
avança

o último fio
de esperança
o mangue

enquanto a morte
espreita
a noite, nas esquinas

esta caneta escorre
a tinta, como sangue
esquenta a vida

2.
maria, bastiana
zefinha, bia, silva
vó, mãe, fia

que família
todo o  Recife
é moradia?

lençol de mulambo
colchão de cimento
telhado de estrelas

a dor se faz
lírica
a contragosto

como um sax
agride
como peixeira

a noite estupra
sangra
sem piedade

como dentes
podres
a coragem

como a fome
o grito encarnado
estendido

ladra
ninguém ouve
morde, morde

cão sem plumas
paralítico
em si mesmo

arranca da fome
os seus vazios
que a vida é escárnio

a vingança
irrompe
com a madrugada

a veia
desatada
é o rio espesso

lama de mangue
argila
que se entranha

trincheira
de caranguejos sapiens
estuário

uma vida não passa
como a ponte
o rio

como o sangue-tinteiro
assina o nome
a revolta

 

Mínima poética - declaração de princípios

A - Tese
1.
a incapacidade
matemática
de medir
versos
como quem
calcula a vida

2.
barragem
de concreto
a língua
sem teoremas
ou teses
formuladas

3.
mas a exatidão
da medicina
do diagnóstico
que prescreva
medicamento
à ferida

4.
a cura
do verso
pelo regime
eliminar
gorduras
como excremento

5.
o estetoscópio
da palavra
não mede
a imprecisão
das descargas
de adrenalina

6.
automedicar-se
saber dos erros
a bula
como quem conhece
da química
as reações

B - Antítese

1.
posto à cirurgia
corpo, flor
equação ou poema
trazem em si
seus desvios
avessos

2.
nada provar
ou aprovar
verdades
consumir-se ou renovar-se como mangue

3.
o que se extrai
dor, catarse
fruto, sonho
que não se compra

qual o preço
do poema?

C - Síntese
1.
não à loucura
lírica, retórica
nem a camisa-de-força
da psiquiatria
métrica
dos estetas

2.
a forma física
do verso - do poeta
independe
da forma fixa
exige apenas
da dieta a paciência

3.
a tensão do nervo
exposto
também a carne
a pele
com a fragrância
que se exala

4.
fazer de músculos
pétalas e fermento
roer ossos
como se saboreia
pão e lágrimas
por que não?

5.
não negar
desejos
o tecido
que se rasga
o sexo
que alucina

6.
o menos um
da embriaguez
o uivo do acaso
o talho seco
do lampejo
a poesia que se acende

Poema inscrito num tijolo
ou o tempo encrostado no Recife Antigo

Este poema não se pretende
pedra mas se constrói com a argila do tempo
poderia construir-se:
                           janelas, abrigos, igrejas
puteiros, botequins, arrecifes
um tijolo sobre o outro, inexorável
dando formas à imaginação
aprisioná-lo seria, no entanto,
          suicídio
o Recife, no inverno,
umedece - não emudece - o poema
resiste. Cada caco
recolhido à terra:
alicerce e matéria-prima
da linguagem

tijolo sobre tijolo
o poema se faz
sem saber
arquitetura
paisagem
lodo e esquecimento
 Poema escrito num tijolo antigo
 junho de 89, Aldeia

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