Interpoetica - Pedro Calazans

Pedro Calazans

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Escuta

Se para amar-te for mister martírios, 
Com que delírios saberei sofrer!
Se de altas glórias for mister a palma, 
Talvez minha alma possa além colher.

Quebrar cadeias, conquistar um nome, 
Que não consome o perpassar das eras;
Arcar com a fúria de iracundos nortes,
Sofrer mil mortes, sem morrer deveras;

Nas próprias carnes apertar cilícios,
Nos sacrifícios ter sereno o rosto;
Pisar descalço sobe espinhos duros,
Com pés seguros, com sinais de gosto;

Longe da pátria, no país mais feio,
De tédio em meio, para amar-te, irei
Viver embora sob a zona ardente,
E ali contente por te amar serei!...

E a ser amado, se é mister o incenso,
Que sobe denso dos salões aos tetos;
Serei altivo, mas não vou de rastos,
Com lábios castos mendigar afetos!

~E se me odeias, por não ir-me às salas
Dizer-te as falas de mendaz paixão,
E, aos olhos de outros, profanando extremos,
Dizer-te: amemos, e aperta-te a mão;

Me odeia, e muito, que eu não sou da farsa,
Que o mal disfarça, que desfruta e ri!
Me odeia, e sempre, que eu não desço ao nível
Do pó terrível, que se arrasta aí!

Dá-me o teu ódio, pois não quero - escuta - 
Beber cicuta, procurando mel.
Dá-me o teu ódio, mas num grau subido,
embora ungido de amargoso fel!

Dá-me o teu ódio por fatal sentença,
A indiferença me será pior.
Que um sentimento por mim sintas nalma,
Dá-me essa palma de um sofrer melhor!.

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