Interpoetica - Pedro Kilkerry

Pedro Militão Kilkerry

Floresta morta

Por que, à luz de um sol de primavera,
Uma floresta morta? Um passarinho
Cruzou, fugindo-a, o seio que lhe dera
Abrigo e pouso e que lhe guarda o ninho.

Nem vale, agora, a mesma vida, que era
Como a doçura quente de um carinho,
E onde flores abriram, vai a fera
- vidrado o olhar - lá vai pelo caminho.

Ah! quanto dói o vê-la, aqui, Setembro,
Inda banhada pela mesma vida!
Floresta morta a mesma cousa lembro;

Sob o outro céu assim, que pouca importa,
Abrigo a fera, mas, da ave fugida,
Há no meu peito uma floresta morta.
O muro 

Movendo os pés doirados, lentamente, 
Horas brancas lá vão, de amor e rosas
As impalpáveis formas, no ar, cheirosas...
Sombras, sombras que são da alma doente!

E eu, magro, espio... e um muro, magro, em frente,
Abrindo à tarde as órbitas musgosas
- Vazias? Menos do que misteriosas -
Pestaneja, estremece... O muro sente!

E que cheiro que sai dos nervos dele,
Embora o caio roído, cor de brasa,
e lhe doa talvez aquela pele!

Mas um prazer ao sofrimento casa...
Pois o ramo em que o vento à dor lhe impele
É onda a volúpia está de uma asa e outra asa...

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