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| Chuva A chuva fina molha a paisagem lá fora. O dia está cinzento e longo... Um longo dia! Tem-se a vaga impressão de que o dia demora... E a chuva fina continua, fina e fria, Continua a cair pela tarde, lá fora. Da saleta fechada em que estamos os dois, Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta: a chuva fina continua, fina e lenta... E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta Se um de nós vai falar e recua depois. Dentro de nós existe uma tarde mais fria... Ah! para que falar? como é suave, brando, O tormento de adivinhar - quem o faria? - as palavras que estão dentro de nós chorando... Somos como rosais que, sob a chuva fria, Estão lá fora no jardim se desfolhando. Chove dentro de nós... Chove melancolia... No Jardim em Penumbra Na penumbra em que jaz o jardim silencioso A tarde triste vai morrendo ... desfalece... Sobre a pedra de um banco um vulto doloroso Vem sentar-se, isolado, e como que se esquece. Deve ser um secreto, um delicado gozo Permanecer assim, na hora em que a noite desce, Anônimo, na paz do jardim silencioso, Numa imobilidade extática de prece. Em lugar tão propício à doçura das almas ele vem meditar muitas vezes, sozinho, No mesmo banco, sob a carícia as palmas. E uma só vez o vi chorar, um choro brando... Fiquei a ouvir... Caíra a noite, de mansinho... Uma voz de menina ao longe ia cantando. Esquecer Longos dias de sonho e de repouso... Ócio e doçura...Sinto, nestes dias, Meu corpo amolecer, voluptuoso, Num desfalecimento de energias. A ler o meu poeta doloroso E a fumar, passo as horas fugidias. Entre um cigarro e um verso vaporoso Sou todo evocações e nostalgias. Quando por tudo a claridade morre e sobre as folhas do jardim doente A tinta branca do luar escorre, A minha alma, à mercê de velhas mágoas, É um pássaro ferido mortalmente Que vai sendo arrastado pelas águas. |
Anjo de Outrora O anjo de outrora, adormecido em minha alma Acordou esta noite e espiou nos meus olhos: a lágrima caída ainda há pouco era dele. Foi ele que a esqueceu à porta dos meus olhos, Com o discreto pudor com que à porta da igreja Deixamos cair a esmola na mão de um pobre. O Longe e o Perto
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