Interpoetica - Salomé Queiroga

João Salomé Queiroga

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Retrato da mulata 

Crespa madeixa
Partida em duas,
As fontes tuas
Cercando assim,
Parece largo
Diadema airoso
De mui lustroso
Preto cetim. 

Que bem te assentam
Faces vermelhas
E sobrancelhas
Cor de carvão!
Jabuticabas
Frescas, brilhantes,
Como diamantes
Teus olhos são.

se a mim os volves
Amortecidos,
E derretidos
Em doce amor,
As negras franjas
A custo abrindo,
E despergindo
Terno langor!


Ah! que então sinto
Um tão amável,
Tão inefável,
Vivo prazer,
Que extasiado 
No gozo ativo
Se morro ou vivo
Não sei dizer.

Em tuas faces
Brilha serena
A cor morena
Do buriti:
Teus lábios vertem
Rosca frescura,
Cheiro e doçura
Do jataí.

E quando os abre
Do rir e ensejo,
Perolas vejo
Entre corais:
Como são belos
Assim molhado!
De amor gerados
Me arrancam ais.


Cont.

Para roubar-me 
Cinco sentidos,
Tens escondidos
Certos ladrões
Dentro do seio,
Bem disfarçados,
E transformados
Em dois limões.

A tua airosa
Bela cintura
O gosto apura
Em estreitar,
E o mais que à vista
O pejo oculta 
Vontade exulta
Só de pensar. 

Já que pintei-te,
Minha querida,
Vênus nascida
Cá no Brasil ,
Em premio dai-me
Muxoxos, me deixas,
E beijos mil. 

Piparotes na estátua eqüestre de Pedro I

Pobre país, não tens fé,
Não te causa o crime abalo!
Deixas a virtude de pé,
E pões o vicio a cavalo.

Ei-lo! A nova geração 
Tem-no aqui bem verdadeiro:
Sem possuir coração
E de bronze todo inteiro.

Esse, que vês esculpido
No bronze monumental,
Foi cá no Brasil Cupido,
Marte foi em Portugal. 

Como um primor se apregoa
A estátua de Luís Rochet,
Não pode ser coisa boa:
- "Rien n'est beau que lê vrai. "

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